Desenhados pelos deuses

Desenhados pelos deuses

Já é antiga a minha paixão por pitbulls mas até hoje não a sei explicar. A cabeça larga, os olhos amendoados, as orelhas com toda uma personalidade própria, o físico de fazer inveja a qualquer macho que se preze e as tonalidades absurdas do pêlo brilhante, parecem ser desenhados pelos deuses. Como se alguém decidisse que este era o molde perfeito, fazendo de todos os outros meros aspirantes.

De tantas raças igualmente fortes e tão mais desconfiadas, distantes, barulhentas ou com tantas outras características que por norma não fazem as delícias dos humanos, nunca vou compreender como se foi escolher uma raça tão afetuosa, dedicada e inteligente para ser o alvo de todos os preconceitos.

O Leão nem sequer é um Pitbull, pode ser neto de um ou quem sabe primo em terceiro grau, a matemática da adição da fisionomia com o temperamento apontam nesse sentido mas a única certeza que temos é de que é um Terrier. 

Ainda assim tem cara disso, e mesmo com metade do tamanho, as parecenças foram o suficiente para sentirmos o preconceito desde o primeiro dia.

Na primeira ida ao veterinário alertaram-me de que “ele vai dar problemas” porque rosnou e “com esta cara…”.

O primeiro vizinho que o conheceu com apenas 3 meses não perguntou “como se chama” ou “que idade tem”, “é menino ou menina”, em vez disso exclamou com toda a certeza “este cão vai ser mau, olha-me esse focinho”.

Os pais sempre gritaram em desespero “nesse não!” quando viam as suas crias em direção à minha. 

Não sei se já era o seu destino ou se a “manifestação” foi tão forte que ele veio confirmar as suspeitas de todos os ignorantes com quem se foi cruzando. Ainda nem tinha perdido os traços de cachorro e já era reativo e altamente intolerante a qualquer desconhecido. 

Por vezes dava por mim a pensar: Será que ele percebe? Será que ele sente que não gostam dele? Que não é bem-vindo? Será que as reações dele são unicamente um espelho de como ele próprio é recebido? 

A história e a ciência são claras. Não existe absolutamente nada num Pitbull que o torne mais perigoso do que qualquer outro cão do seu porte mas no fim do dia, isso parece ter pouquíssimo peso contra um bom mito urbano.

Um Pitbull nunca poderá fazer barulho, enervar-se ou colocar limites. Tal como um negro, qualquer emigrante e outros que tais. Se na história se decidiu que a tua aparência intimida, cabe-te a ti viver de cabeça baixa para provar que não deves ser temido. 

O preconceito é um gajo tramado. Faz com que alguns percam direitos à nascença. Faz com que alguns comecem a corrida a umas centenas de metros da linha de partida. Mas também faz com que queiram provar em dobro tudo o que merecem.

E no meio de tudo isso, os que conseguem correr contra a corrente tornam-se tão fortes que o seu valor vira incontestável. E passando por todos os ignorantes no caminho chegam à meta. Fortes, admiráveis, desenhados pelos deuses. Fazendo de todos os outros meros aspirantes.